Já iamos de férias para os Galegos, eu e a minha irmã Linda fomos passar uns dias das férias de Páscoa na Várzea, em casa da Sra. Maria. Dormiamos numa cama de casal no quarto que ficava ao cimo das escadas que subiam da sala que ficava ao lado da cozinha. Dessa sala lembro-me muito bem do relógio de pêndulo, que eu adorava,e dos papeis de cor recortados que eram usados como naperons e para enfeitar as paredes, segundo as minhas recordações, não sei se exactas.
Foram uns dias maravilhosos. Passeavamos pelos campos, colhíamos flores, que abundavam nos campos, pois era Primavera. Foi a descoberta de um aspecto diferente daqueles campos, que só conhecíamos de Verão.
Mas a recordação mais forte está ligada às deliciosas batatas fritas que a Sra. Maria nos fazia para acompamhar os ovos estrelados. Nunca tinha comido, nem voltei a comer, batatas fritas tão deliciosas. Para isso deviam-se conjugar vários factores, calculo eu, como o recipiente, o ser feito ao lume de brasas e, principalmente, ao azeite que devia ter um grau de acidez elevado. Aliás ainda hoje eu não aprecio o azeite bom , sem acidez. Para mim bom azeite é o azeite com acidez como, julgo eu, era o da Várzea
sábado, 20 de fevereiro de 2010
domingo, 14 de fevereiro de 2010
Memórias 8
Destes sítios e destas pessoas (principalmente), mas também de outras familiares destas mas residentes noutros Lugares, guardo uma saudade enorme. Quase todas já faleceram.
Durante muitos anos visitei aquele Lugar e aqueles que aí ainda residiam, e sempre ali estávamos como fossemos família.

Das últimas vezes estivemos com a Menina Hortense (nessa altura só ela, marido e família da filha é que viviam no Casal), que faleceu há pouco tempo e de quem tenho muita saudade, pois tinha uma enorme ternura por ela.
Também pela Sra. Bernardina, falecida há alguns anos (já com 86 anos penso eu, e na casa da filha, na Sapataria), e pela Sra. Maria, esta falecida há muito mais tempo, sinto uma terna saudade.
Da Menina Maria há muito que não tinha notícias. Com certeza que faleceu também.
E o Leonel? Não obstante as suas grandes limitações era muito inteligente, e foi sempre um amigo. Faleceu recentemente, já com 70 anos, tendo sido toda a sua vida muito acarinhado pela família, principalmente pela mãe e pela irmã que passou a prestar-lhe os cuidados que ele precisava quando a mãe deixou de o poder fazer.E nunca transpereceu da parte destas qualquer contrariedade pelo facto, evidenciando sempre o grande amor que lhe tinham.
A Maria Helena, de quem continuo amiga, embora agora contactemos pouco, é que me vai dando algumas notícias. Mas a Sapataria, dado ter acesso à auto-estrada a cerca de 3 Km, sofreu um impacto urbanistico completamente descaracterizante (com enormes edifícios, um deles, penso, com um Centro Comercial), que me desgosta e que me leva a não ter vontade de lá voltar!
Regresso sempre, sim, quando recordo as vivências de férias da minha infância e adolescência associadas àqueles lugares, designadamente com a minha irmã Linda e os meus sobrinhos, embora as recordações destes (com excepção, talvez, do Alfredo) estejam mais ligadas ao Lugar dos Galegos.
Durante muitos anos visitei aquele Lugar e aqueles que aí ainda residiam, e sempre ali estávamos como fossemos família.

Das últimas vezes estivemos com a Menina Hortense (nessa altura só ela, marido e família da filha é que viviam no Casal), que faleceu há pouco tempo e de quem tenho muita saudade, pois tinha uma enorme ternura por ela.
Também pela Sra. Bernardina, falecida há alguns anos (já com 86 anos penso eu, e na casa da filha, na Sapataria), e pela Sra. Maria, esta falecida há muito mais tempo, sinto uma terna saudade.
Da Menina Maria há muito que não tinha notícias. Com certeza que faleceu também.
E o Leonel? Não obstante as suas grandes limitações era muito inteligente, e foi sempre um amigo. Faleceu recentemente, já com 70 anos, tendo sido toda a sua vida muito acarinhado pela família, principalmente pela mãe e pela irmã que passou a prestar-lhe os cuidados que ele precisava quando a mãe deixou de o poder fazer.E nunca transpereceu da parte destas qualquer contrariedade pelo facto, evidenciando sempre o grande amor que lhe tinham.
A Maria Helena, de quem continuo amiga, embora agora contactemos pouco, é que me vai dando algumas notícias. Mas a Sapataria, dado ter acesso à auto-estrada a cerca de 3 Km, sofreu um impacto urbanistico completamente descaracterizante (com enormes edifícios, um deles, penso, com um Centro Comercial), que me desgosta e que me leva a não ter vontade de lá voltar!
Regresso sempre, sim, quando recordo as vivências de férias da minha infância e adolescência associadas àqueles lugares, designadamente com a minha irmã Linda e os meus sobrinhos, embora as recordações destes (com excepção, talvez, do Alfredo) estejam mais ligadas ao Lugar dos Galegos.
quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010
Memórias 6
Para além das nossas passeatas nos carros de bois ou na carroça do burro, ou nestes mesmos burros, havia os passeios que dávamos até à quinta dos tios Júlio e Irene, irmã do meu pai, que ficava talvez a 3Km entre subidas e descidas pelos montes. Descia-se até à Sapataria, subia-se até ao Casal dos Limões onde, segundo me recorda a minha irmã Linda, descansávamos e aproveitávamos para apanhar e comer pinhões, antes de prosseguirmos a caminhada por um caminho entre pinheiros quase até à proximidade da propriedade.
Descansarmos é força de expressão, pois nós não nos cansávamos, íamos bem instaladas nas burras. A nossa mãe é que fazia todo o percurso a pé porque, dizia ela, não sei se era verdade, tinha medo de andar de burro.
Depois de passarmos uma parte do dia com os nossos tios e primos, regressávamos com os alforges das burras carregados de deliciosos peros...
Deste período não guardo memórias dos nossos 3 sobrinhos, filhos da nossa irmã mais velha, então já nascidos (o Alfredo, apenas dois anos mais novo que eu, a Cristina e o Rodrigo), embora eles também passassem muitos períodos das férias connosco.

Na foto, os meus pais com a Cristina e o Rodrigo no eucaliptal da Sra. Bernardina
Recordo-me, no entanto de numa das vezes em que íamos à Enxara (terra onde ficava a quinta dos nossos tios), a Russa quando chegou ao início do caminho que descia da Várzea para a Sapataria, resolver rebolar-se no chão (coisa que nela era frequente, porque era muito senhora do seu nariz), e era o meu sobrinho Alfredo que ia montado nela. Penso que não iria sozinho, mas a recordação que tenho é só de ser ele a ir parar ao chão, embora sem se magoar.
Descansarmos é força de expressão, pois nós não nos cansávamos, íamos bem instaladas nas burras. A nossa mãe é que fazia todo o percurso a pé porque, dizia ela, não sei se era verdade, tinha medo de andar de burro.
Depois de passarmos uma parte do dia com os nossos tios e primos, regressávamos com os alforges das burras carregados de deliciosos peros...
Deste período não guardo memórias dos nossos 3 sobrinhos, filhos da nossa irmã mais velha, então já nascidos (o Alfredo, apenas dois anos mais novo que eu, a Cristina e o Rodrigo), embora eles também passassem muitos períodos das férias connosco.
Na foto, os meus pais com a Cristina e o Rodrigo no eucaliptal da Sra. Bernardina
Recordo-me, no entanto de numa das vezes em que íamos à Enxara (terra onde ficava a quinta dos nossos tios), a Russa quando chegou ao início do caminho que descia da Várzea para a Sapataria, resolver rebolar-se no chão (coisa que nela era frequente, porque era muito senhora do seu nariz), e era o meu sobrinho Alfredo que ia montado nela. Penso que não iria sozinho, mas a recordação que tenho é só de ser ele a ir parar ao chão, embora sem se magoar.
Memórias 5
E a liberdade gozada? Eu e a minha irmã só íamos a casa para comer e dormir. Eu entretida com as brincadeiras com a minha amiga, ou a presenciar o que atrás descrevi, a Linda acompanhando o Sr. Luís, que dada a sua pouca saúde apenas apanhava ervas para as burras, a Carriça, castanha e dócil, e a Russa, mais independente. Durante a deslocação até à borda do riacho onde apanhava as ervas, e durante o desempenho desta tarefa, ele contava-lhe as histórias da Grande Guerra, que acabavam por ser sempre as mesmas. Mas nem por isso, parece, a conversa deixava de ter interesse para a minha irmã.
A minha mãe quando nos queria chamar utilizava um apito. Um assobio era para chamar uma de nós, dois para chamar a outra.
E a memória que tenho do que vestia, era para além dos vestidos das fotos ( e talvez a memória corresponda aos meus primeiros anos de idade), é a de uns macaquinhos de tecido de algodão apenas com calções e alças cruzadas. E muitas vezes andava também descalça, e no campo, com tantos picos e pedras, não sei como não me magoava…
Não existindo casa de banho nem banheira, o banho era tomado no tanque da roupa, junto ao poço.
Mas a água desse poço não era boa para beber e eu e a Linda íamos todos os dias buscar água à mina, que ficava a 20, 30 minutos de caminho. Mas era um passeio sempre agradável, não constituía sacrifício nenhum! A não ser um dia em que no caminho estava uma pequena cobra morta. Com o terror que ela tinha a tal bicho foi-lhe difícil continuar o caminho, e lembro-me bem o que me diverti à custa dela, por dar uma volta enorme para não passar ao pé do animal morto!
A minha mãe quando nos queria chamar utilizava um apito. Um assobio era para chamar uma de nós, dois para chamar a outra.
E a memória que tenho do que vestia, era para além dos vestidos das fotos ( e talvez a memória corresponda aos meus primeiros anos de idade), é a de uns macaquinhos de tecido de algodão apenas com calções e alças cruzadas. E muitas vezes andava também descalça, e no campo, com tantos picos e pedras, não sei como não me magoava…
Não existindo casa de banho nem banheira, o banho era tomado no tanque da roupa, junto ao poço.
Mas a água desse poço não era boa para beber e eu e a Linda íamos todos os dias buscar água à mina, que ficava a 20, 30 minutos de caminho. Mas era um passeio sempre agradável, não constituía sacrifício nenhum! A não ser um dia em que no caminho estava uma pequena cobra morta. Com o terror que ela tinha a tal bicho foi-lhe difícil continuar o caminho, e lembro-me bem o que me diverti à custa dela, por dar uma volta enorme para não passar ao pé do animal morto!
Memórias 4
Não consigo hierarquizar, mas se calhar, o que eu mais gostava daqueles verões na Várzea era das atarefas associadas às colheitas. Não propriamente ao ceifar, de que não tenho qualquer memória, mas ao debulhar.
Para este efeito eram preparadas as eiras. Num terreno imediatamente abaixo do eucaliptal que ficava nas traseiras da casa da Sra. Bernardina, era preparada a eira do Sr. João.A eira era um es+aço redondo, feita com palha e água, pisadas pelas ovelhas do Sr. Fernando, que andavam à volta,à volta sobre aquela mistura (segundo me lembrou a minha amiga Mª Helena de molde a fazer aquel terra dura e mais clara do que a que a circundava, e que não se esboroava.
Lembro-me que o feijão e o grão eram debulhados com o mangual, peça de difícil manuseamento (era constituída por 2 paus ligados por uma correia), mas que era utilizada pelos homens com mestria.Mass o que eu recordo com alegre saudade, passe a contradição, era a debulha do trigo.
Esta era feita com um carro constituído por um cilindro cravejado de pregos, sobre o qual assentava um estrado com um banco corrido para se sentar quem dirigia os bois que puxavam aquele instrumento. Às vezes o Sr. João confiava essa tarefa à minha irmã, e eu ia sentada ao seu lado.
Adorava também presenciar o trabalho do criadito do Sr. João, que seguia atentamente os bois para limpar os seus dejectos.
Parece-me que não havia melhor coisa no Verão que aquela debulha. Ou haveria?
Talvez a “escarapelada” (assim ali se denominava a retirada da palha da maçaroca de milho, que se fazia à noite à luz dos petromax e que juntava toda a família alargada), fosse ainda melhor! Pelo menos era(m) uma(s) noite(s) de grande brincadeira e alegria: a Menina Maria tinha sempre graças e histórias para contar entre os seus risos e brilho dos olhos e, o mais divertido, eram os beijinhos e beliscões, determinados pelo tipo de milho da maçaroca, que constituíam sempre motivo de gargalhadas e grande algazarra.
Mas também adorava acompanhar a menina Hortense, todas as tardes, ao estábulo das vacas. Aí, ela mudava a cama dos animais (tirava os dejectos para o monte de estrume que ficava a curtir no pátio e que depois era utilizado como adubo para a terra cultivada (de batatas, cebolas, abóboras e cereais), operação que me dava grande gozo presenciar.
Depois de preparada a nova cama com palha e tojo limpos, a Menina Hortense mungia então as vacas, enquanto estas iam abanando a cauda, que muitas vezes lhe batia no rosto: “está quieta Carocha, chega para lá Estrela…” Estes eram alguns dos nomes que me lembro: Carocha porque a vaca era toda preta, Estrela porque tinha uma estrela branca desenhada na testa.
A maior parte do leite era levado para um posto de recolha na Sapataria, por uma rapariga que passava de burro com os respectivos recipientes. Mas algum ficava para consumo da família e para a feitura da manteiga que a Menina Hortense fazia batendo, manualmente, o leite
Para este efeito eram preparadas as eiras. Num terreno imediatamente abaixo do eucaliptal que ficava nas traseiras da casa da Sra. Bernardina, era preparada a eira do Sr. João.A eira era um es+aço redondo, feita com palha e água, pisadas pelas ovelhas do Sr. Fernando, que andavam à volta,à volta sobre aquela mistura (segundo me lembrou a minha amiga Mª Helena de molde a fazer aquel terra dura e mais clara do que a que a circundava, e que não se esboroava.
Lembro-me que o feijão e o grão eram debulhados com o mangual, peça de difícil manuseamento (era constituída por 2 paus ligados por uma correia), mas que era utilizada pelos homens com mestria.Mass o que eu recordo com alegre saudade, passe a contradição, era a debulha do trigo.
Esta era feita com um carro constituído por um cilindro cravejado de pregos, sobre o qual assentava um estrado com um banco corrido para se sentar quem dirigia os bois que puxavam aquele instrumento. Às vezes o Sr. João confiava essa tarefa à minha irmã, e eu ia sentada ao seu lado.
Adorava também presenciar o trabalho do criadito do Sr. João, que seguia atentamente os bois para limpar os seus dejectos.
Parece-me que não havia melhor coisa no Verão que aquela debulha. Ou haveria?
Talvez a “escarapelada” (assim ali se denominava a retirada da palha da maçaroca de milho, que se fazia à noite à luz dos petromax e que juntava toda a família alargada), fosse ainda melhor! Pelo menos era(m) uma(s) noite(s) de grande brincadeira e alegria: a Menina Maria tinha sempre graças e histórias para contar entre os seus risos e brilho dos olhos e, o mais divertido, eram os beijinhos e beliscões, determinados pelo tipo de milho da maçaroca, que constituíam sempre motivo de gargalhadas e grande algazarra.
Mas também adorava acompanhar a menina Hortense, todas as tardes, ao estábulo das vacas. Aí, ela mudava a cama dos animais (tirava os dejectos para o monte de estrume que ficava a curtir no pátio e que depois era utilizado como adubo para a terra cultivada (de batatas, cebolas, abóboras e cereais), operação que me dava grande gozo presenciar.
Depois de preparada a nova cama com palha e tojo limpos, a Menina Hortense mungia então as vacas, enquanto estas iam abanando a cauda, que muitas vezes lhe batia no rosto: “está quieta Carocha, chega para lá Estrela…” Estes eram alguns dos nomes que me lembro: Carocha porque a vaca era toda preta, Estrela porque tinha uma estrela branca desenhada na testa.
A maior parte do leite era levado para um posto de recolha na Sapataria, por uma rapariga que passava de burro com os respectivos recipientes. Mas algum ficava para consumo da família e para a feitura da manteiga que a Menina Hortense fazia batendo, manualmente, o leite
Memórias 3
Adorava presenciar todas as tarefas associadas à feitura do pão, que na casa da Sra. Maria era feito ao sábado à tarde.
Começava-se com o peneirar da farinha, que vinha do moleiro moída com o farelo. Eram então utilizadas as peneiras que se encontravam penduradas nas paredes da cozinha, divisão térrea de entrada em casa onde se encontrava o forno ao fundo da chaminé, onde também se fazia o lume, a um canto da mesma entre os tijolos preparados para o efeito, para fazer as refeições, que eram tomadas nessa zona da casa, que era o centro da mesma, como, aliás, em todas as casas da aldeia.
Depois de peneirada a farinha (de trigo e de milho, em separado) para os grandes alguidares de barro esmaltado que, depois de lhe ser junto o fermento (pedaço da massa levedada guardado da semana anterior) e água, era amassada braçalmente. Quando esta trabalhosa tarefa era dada como concluída, a Sra. Maria e a Menina Hortense traçavam uma cruz na massa de cada um dos alguidares, tapavam-nos com uns panos brancos muito limpos, e deixavam-na a levedar.
Decorrido o tempo considerado conveniente, procediam então à retirada dos pedaços de massa de farinha que moldavam e colocavam numa pá de cabo comprido para colocar os pães, então formados, no forno, que entretanto fora previamente aquecido com lenha a arder.
Depois de cozidos, os pães eram retirados com a pá e colocados em grandes arcas, envoltos em panos brancos, para irem sendo consumidos durante a semana. Este pão para mim era sempre a maior iguaria do mundo, mesmo com 8 dias!
O farelo amassava-se para fazer pão para os cães, e quando eu era mais crescidinha, e para corresponderem aos meus desejos, aquelas queridas mulheres deixavam que fosse eu a amassá-lo.
Também me davam pedaços de farinha, com os quais eu, radiante, fazia pequeninos pães de trigo e milho, que cozia ao Sol no peitoril da janela.
A Sra. Bernardina, para grande desgosto meu, fazia estas tarefas de madrugada pelo que nunca a podia acompanhar.
Mas da sua casa recordo as noites divertidas, animadas pelas malandrices da minha irmã, a que a Sra. Bernardina correspondia: “ó Sra. Bernardina diga lá otorrinolaringologista”, insistia ela entre as palavras difíceis que queria que a paciente mulher dissesse, e todos nos divertíamos, designadamente o Leonel, com aquelas traquinices a que a Sra. Bernardia correspondia cheia de humor, até desistir de articular palavras enormes que nada lhe diziam.
Outra das tarefas caseiras que eu gostava muito de presenciar era a preparação da comida para o porco, que naquela altura do ano era feita com restos de comida, cascas de batatas e hortaliça cortada. Não sei se ia ao lume nas latas em que era preparada ou se lhe era deitada água quente, mas o cheiro que recordo, parece-me ser daqueles ingredientes meio cozidos.
Começava-se com o peneirar da farinha, que vinha do moleiro moída com o farelo. Eram então utilizadas as peneiras que se encontravam penduradas nas paredes da cozinha, divisão térrea de entrada em casa onde se encontrava o forno ao fundo da chaminé, onde também se fazia o lume, a um canto da mesma entre os tijolos preparados para o efeito, para fazer as refeições, que eram tomadas nessa zona da casa, que era o centro da mesma, como, aliás, em todas as casas da aldeia.
Depois de peneirada a farinha (de trigo e de milho, em separado) para os grandes alguidares de barro esmaltado que, depois de lhe ser junto o fermento (pedaço da massa levedada guardado da semana anterior) e água, era amassada braçalmente. Quando esta trabalhosa tarefa era dada como concluída, a Sra. Maria e a Menina Hortense traçavam uma cruz na massa de cada um dos alguidares, tapavam-nos com uns panos brancos muito limpos, e deixavam-na a levedar.
Decorrido o tempo considerado conveniente, procediam então à retirada dos pedaços de massa de farinha que moldavam e colocavam numa pá de cabo comprido para colocar os pães, então formados, no forno, que entretanto fora previamente aquecido com lenha a arder.
Depois de cozidos, os pães eram retirados com a pá e colocados em grandes arcas, envoltos em panos brancos, para irem sendo consumidos durante a semana. Este pão para mim era sempre a maior iguaria do mundo, mesmo com 8 dias!
O farelo amassava-se para fazer pão para os cães, e quando eu era mais crescidinha, e para corresponderem aos meus desejos, aquelas queridas mulheres deixavam que fosse eu a amassá-lo.
Também me davam pedaços de farinha, com os quais eu, radiante, fazia pequeninos pães de trigo e milho, que cozia ao Sol no peitoril da janela.
A Sra. Bernardina, para grande desgosto meu, fazia estas tarefas de madrugada pelo que nunca a podia acompanhar.
Mas da sua casa recordo as noites divertidas, animadas pelas malandrices da minha irmã, a que a Sra. Bernardina correspondia: “ó Sra. Bernardina diga lá otorrinolaringologista”, insistia ela entre as palavras difíceis que queria que a paciente mulher dissesse, e todos nos divertíamos, designadamente o Leonel, com aquelas traquinices a que a Sra. Bernardia correspondia cheia de humor, até desistir de articular palavras enormes que nada lhe diziam.
Outra das tarefas caseiras que eu gostava muito de presenciar era a preparação da comida para o porco, que naquela altura do ano era feita com restos de comida, cascas de batatas e hortaliça cortada. Não sei se ia ao lume nas latas em que era preparada ou se lhe era deitada água quente, mas o cheiro que recordo, parece-me ser daqueles ingredientes meio cozidos.
Memórias 2
O Casal da Várzea era constituído pelas casas, palheiros, estábulos, etc..de 4 famílias, todas elas unidas entre si por laços familiares.
A família a quem os meus pais alugavam a parte de casa era, inicialmente, porquanto os seus membros mais idosos foram entretanto falecendo, constituída pela Sra. Bernardina, mulher cheia de força que chefiava uma família constituída pelo marido, Sr. Luís, bastante mais velho que ela e com problemas de saúde, por ter sido gazeado na guerra de 1914-1918, a filha Mª Helena (minha companheira de brincadeiras e com quem eu colaborava em pequenas tarefas, como apanhar erva para os coelhos), o filho Leonel, com um elevadíssimo grau de paralisia cerebral (a mãe que, confrontada, aquando do seu nascimento com a questão da sua sobrevivência, tinha optado, sem dúvidas, por que ele vivesse, cuidava-o extremosamente e com os cuidados possíveis no contexto da época), e ainda dois cunhados, um dos quais deficiente mental profundo, o ti Manel, que adorava a minha mãe, “ a ti Atum”, e temia a minha irmã, que lhe fazia muitas partidas, designadamente com o fogo, que o horrorizava (“ ó ti Atum, ó ti Atum, olha a meni que qué fazê mal ao Mané”, queixava-se ele à nossa mãe quando se assustava).

A casa era grande, de dois pisos. Em baixo era a cozinha, térrea, onde se desenvolvia toda a vida diária dos habitantes da casa: preparar as refeições, comer, fazer o pão, preparar as comidas para os animais, conversar, enfim, estar.
Desta cozinha subia uma escada para o 1º andar, o qual era constituído por várias divisões de um lado e de outro de um corredor que se estendia ao longo de toda a casa. Esse corredor estava dividido por uma porta, e era depois dessa porta que se encontrava a parte da casa alugada pelo meu pai. Uma das divisões dessa parte da casa tinha porta para um terreno que se estendia ao longo da casa, ao fundo qual era o caminho pelo qual se acedia a todas as casas do Lugar e ao caminho para a Sapataria.


Da “cozinha da Sra. Bernardina” passava-se, pelo interior, quer para a casa dos animais, galinha, perus, etc... e, julgo, também ovelhas, quer para o palheiro, que tinha uma porta para um grande “pátio”, para onde também se acedia por uma porta da cozinha, que era aliás aquela que nós todos, incluindo os inquilinos, utilizávamos com maior frequência para entrar e sair de casa.
No pátio, e em frente à porta da cozinha, situava-se ainda a pocilga com o porco e também uma outra construção que me recordo ser também o abrigo da cadela. Para esse espço dava também a casa das burras, que era contígua ao palheiro.
Esse pátio era fechado e tinha dois portões, um dava para o terminus do caminho da Várzea e o outro para o “eucaliptal da Sra. Bernardina” e para as terras, sua propriedade, que, após um certo declive ( ao fundo do qual se encontravam, a cerca de 50 metros o poço e o tanque), se estendiam pelo monte acima.
Naquele eucaliptal desenrolavam-se muitas das brincadeiras com a Mª Helena. Era aí, que, com os caquinhos de tijolos e telhas, as folhas de eucalipto transformadas em peixe espada e as agulhas dos pinheiros (previamente preparadas) como chouriços, que nós fazíamos as comidinhas. Lembrou-me a minha sobrinha Cristina que, também, raspando aqueles caquinhos, fazíamos o colorau para os temperos! A minha irmã Linda também colaborava. Com grande engenho, e com um canivete, transformava bogalhos em tachinhos e panelas, com tampas e tudo!

O Sr. Luís era irmão do Sr. André, que morava num conjunto habitacional contíguo. Casado com a Sra. Maria, com eles viviam a sua filha, a Menina Hortense (de quem recordo a doçura e o sorriso tímido que sempre lhe conheci),e o marido, o Sr. João, casal que entretanto veio a ser pais de uma menina linda, a Leonilde, cerca de 5 anos mais nova que eu.
Desta família emanava uma harmonia e uma afectuosidade entre todos os seus membros, e mais especificamente entre mãe e filha e entre esta e o seu marido “o meu senhor”, como ela dizia, que são das impressões mais marcantes que eu tenho dessa época.
Era aliás, naquela casa que eu passava grande parte do tempo, ocupada a ver as tarefas caseiras e até a colaborar nas mesmas, quando tal me era permitido por aquelas queridas mulheres .
No Casal da Várzea vivia também um outro filho do Sr. André e da Sra. Maria, com a sua família, e ainda outro casal com o seu filho, cuja mulher, a Menina Maria prima das outras famílias, era uma personagem fantástica pela sua vivacidade, maravilhosos olhos verdes e sorriso (e riso) constante, num rosto bem talhado, com o cabelo muito escuro penteado em carrapito, como todas as mulheres dali, naquela época.
Esta Menina Maria, que trabalhava na casa da família rica da terra, andava sempre impecavelmente arranjada, com uns aventais branquíssimos, cujas passagens (cozer da roupa entrançado, não sei como explicar hoje, quando já nem são fabricadas linhas para este efeito), nem se notavam tal era a perfeição da sua costura. Foi esta senhora que ensinou a minha irmã Linda a passajar, que aprendeu a fazê-lo, não com a mesma perfeição (era impossível, mas muito bem.

Na foto, o avental branco é da Menina Maria, que ficou cortada
A família a quem os meus pais alugavam a parte de casa era, inicialmente, porquanto os seus membros mais idosos foram entretanto falecendo, constituída pela Sra. Bernardina, mulher cheia de força que chefiava uma família constituída pelo marido, Sr. Luís, bastante mais velho que ela e com problemas de saúde, por ter sido gazeado na guerra de 1914-1918, a filha Mª Helena (minha companheira de brincadeiras e com quem eu colaborava em pequenas tarefas, como apanhar erva para os coelhos), o filho Leonel, com um elevadíssimo grau de paralisia cerebral (a mãe que, confrontada, aquando do seu nascimento com a questão da sua sobrevivência, tinha optado, sem dúvidas, por que ele vivesse, cuidava-o extremosamente e com os cuidados possíveis no contexto da época), e ainda dois cunhados, um dos quais deficiente mental profundo, o ti Manel, que adorava a minha mãe, “ a ti Atum”, e temia a minha irmã, que lhe fazia muitas partidas, designadamente com o fogo, que o horrorizava (“ ó ti Atum, ó ti Atum, olha a meni que qué fazê mal ao Mané”, queixava-se ele à nossa mãe quando se assustava).
A casa era grande, de dois pisos. Em baixo era a cozinha, térrea, onde se desenvolvia toda a vida diária dos habitantes da casa: preparar as refeições, comer, fazer o pão, preparar as comidas para os animais, conversar, enfim, estar.
Desta cozinha subia uma escada para o 1º andar, o qual era constituído por várias divisões de um lado e de outro de um corredor que se estendia ao longo de toda a casa. Esse corredor estava dividido por uma porta, e era depois dessa porta que se encontrava a parte da casa alugada pelo meu pai. Uma das divisões dessa parte da casa tinha porta para um terreno que se estendia ao longo da casa, ao fundo qual era o caminho pelo qual se acedia a todas as casas do Lugar e ao caminho para a Sapataria.
Da “cozinha da Sra. Bernardina” passava-se, pelo interior, quer para a casa dos animais, galinha, perus, etc... e, julgo, também ovelhas, quer para o palheiro, que tinha uma porta para um grande “pátio”, para onde também se acedia por uma porta da cozinha, que era aliás aquela que nós todos, incluindo os inquilinos, utilizávamos com maior frequência para entrar e sair de casa.
No pátio, e em frente à porta da cozinha, situava-se ainda a pocilga com o porco e também uma outra construção que me recordo ser também o abrigo da cadela. Para esse espço dava também a casa das burras, que era contígua ao palheiro.
Esse pátio era fechado e tinha dois portões, um dava para o terminus do caminho da Várzea e o outro para o “eucaliptal da Sra. Bernardina” e para as terras, sua propriedade, que, após um certo declive ( ao fundo do qual se encontravam, a cerca de 50 metros o poço e o tanque), se estendiam pelo monte acima.
Naquele eucaliptal desenrolavam-se muitas das brincadeiras com a Mª Helena. Era aí, que, com os caquinhos de tijolos e telhas, as folhas de eucalipto transformadas em peixe espada e as agulhas dos pinheiros (previamente preparadas) como chouriços, que nós fazíamos as comidinhas. Lembrou-me a minha sobrinha Cristina que, também, raspando aqueles caquinhos, fazíamos o colorau para os temperos! A minha irmã Linda também colaborava. Com grande engenho, e com um canivete, transformava bogalhos em tachinhos e panelas, com tampas e tudo!
O Sr. Luís era irmão do Sr. André, que morava num conjunto habitacional contíguo. Casado com a Sra. Maria, com eles viviam a sua filha, a Menina Hortense (de quem recordo a doçura e o sorriso tímido que sempre lhe conheci),e o marido, o Sr. João, casal que entretanto veio a ser pais de uma menina linda, a Leonilde, cerca de 5 anos mais nova que eu.
Desta família emanava uma harmonia e uma afectuosidade entre todos os seus membros, e mais especificamente entre mãe e filha e entre esta e o seu marido “o meu senhor”, como ela dizia, que são das impressões mais marcantes que eu tenho dessa época.
Era aliás, naquela casa que eu passava grande parte do tempo, ocupada a ver as tarefas caseiras e até a colaborar nas mesmas, quando tal me era permitido por aquelas queridas mulheres .
No Casal da Várzea vivia também um outro filho do Sr. André e da Sra. Maria, com a sua família, e ainda outro casal com o seu filho, cuja mulher, a Menina Maria prima das outras famílias, era uma personagem fantástica pela sua vivacidade, maravilhosos olhos verdes e sorriso (e riso) constante, num rosto bem talhado, com o cabelo muito escuro penteado em carrapito, como todas as mulheres dali, naquela época.
Esta Menina Maria, que trabalhava na casa da família rica da terra, andava sempre impecavelmente arranjada, com uns aventais branquíssimos, cujas passagens (cozer da roupa entrançado, não sei como explicar hoje, quando já nem são fabricadas linhas para este efeito), nem se notavam tal era a perfeição da sua costura. Foi esta senhora que ensinou a minha irmã Linda a passajar, que aprendeu a fazê-lo, não com a mesma perfeição (era impossível, mas muito bem.
Na foto, o avental branco é da Menina Maria, que ficou cortada
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